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Geopolítica

Terras-raras: por que o Brasil pode ser a peça-chave na guerra entre EUA e China

person Phelipe Xavier schedule 10 min read calendar_today 26 de fevereiro de 2026
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Em abril de 2025, a China restringiu a exportação de sete minerais de terras-raras pesadas para os Estados Unidos. Em resposta, Trump assinou uma ordem executiva dando 180 dias — prazo que vence em agosto de 2026 — para que os EUA reduzam a dependência chinesa em minerais críticos. No meio desse cabo-de-guerra, existe um país com a segunda maior reserva do planeta e que quase ninguém menciona: o Brasil.

Este artigo explica o que são terras-raras, por que a China controla o mercado, o que Trump quer fazer a respeito e como o Brasil pode se beneficiar — ou cair numa armadilha — nesse jogo geopolítico de bilhões de dólares.

O que são terras-raras e por que elas movem o mundo moderno

Terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos — os 15 lantanídeos mais escândio e ítrio. Apesar do nome, não são exatamente raros na crosta terrestre. O cério, por exemplo, é mais abundante que o cobre. O problema é que aparecem dispersos em concentrações baixas, o que torna a extração cara e poluente.

Esses elementos são indispensáveis para a tecnologia contemporânea. O neodímio e o praseodímio vão nos ímãs permanentes de motores elétricos e turbinas eólicas. O disprósio permite que esses ímãs funcionem em altas temperaturas. O európio e o térbio são essenciais para telas de smartphones. O gadolínio é usado em ressonâncias magnéticas. Sem terras-raras, não há carro elétrico, não há caça F-35, não há iPhone.

A demanda global explodiu nos últimos anos. O mercado de terras-raras movimentou cerca de US$ 5,5 bilhões em 2024 e projeta-se que chegue a US$ 9 bilhões até 2030, puxado pela transição energética e pela corrida armamentista. E um único país controla a maior fatia desse mercado.

A China controla cerca de 34% das reservas e 70% da produção global — e usa isso como arma

Segundo o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), a China detém cerca de 44 milhões de toneladas em reservas de terras-raras e respondeu por aproximadamente 70% da produção mundial em 2024, com cerca de 240 mil toneladas de óxidos de terras-raras (REO). Mas o domínio vai além da mineração: a China controla mais de 85% do processamento e refino global desses minerais.

Deng Xiaoping disse em 1992 que "o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras-raras". Três décadas depois, essa frase virou doutrina. Pequim investiu décadas em capacidade de refino enquanto o resto do mundo terceirizava. O resultado é uma cadeia de suprimentos quase monopolista.

A China já usou essa vantagem como instrumento de pressão. Em 2010, cortou exportações para o Japão durante uma disputa territorial. Em 2025, após a escalada tarifária de Trump, Pequim restringiu a exportação de disprósio, térbio, lutécio e outros elementos pesados — justamente os mais críticos para a indústria militar americana. A mensagem é clara: quem depende da China para terras-raras está vulnerável.

A ordem executiva de Trump: 180 dias para criar uma cadeia fora da China

Em março de 2025, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva invocando a Lei de Produção de Defesa para acelerar a exploração de minerais críticos em território americano. O decreto estabeleceu um prazo de 180 dias para que agências federais apresentem planos concretos de redução da dependência chinesa — o que coloca o deadline em torno de agosto-setembro de 2025, com desdobramentos projetados para 2026.

O plano inclui agilizar licenças de mineração, criar estoques estratégicos e financiar parcerias com países aliados. O Departamento de Defesa americano já investiu US$ 439 milhões em projetos de terras-raras desde 2020, incluindo a mina de Mountain Pass na Califórnia — a única mina de terras-raras em operação nos EUA, que produziu cerca de 43 mil toneladas de REO em 2024.

Mas minerar é apenas o começo. O gargalo real é o processamento. Mesmo o minério extraído em Mountain Pass precisa ser enviado à China para refino. Construir capacidade de processamento leva anos, não meses. E é aqui que parceiros internacionais entram na equação — com o Brasil no topo da lista.

Brasil: 21 milhões de toneladas e uma oportunidade que pode não se repetir

O USGS estima que o Brasil possui 21 milhões de toneladas em reservas de terras-raras, a segunda maior do mundo, atrás apenas da China e à frente do Vietnã (22 milhões, segundo algumas estimativas) e da Rússia (21 milhões). Os depósitos brasileiros estão concentrados principalmente em Goiás, Minas Gerais e Bahia.

O problema é que reserva não é produção. O Brasil produziu apenas cerca de 100 toneladas de REO em 2024 — uma fração insignificante do mercado global. Não há capacidade de processamento doméstica significativa. Os projetos existentes estão em estágio inicial ou enfrentam anos de licenciamento ambiental.

Compare com a trajetória do nióbio. O Brasil controla mais de 85% da produção mundial de nióbio, graças principalmente à CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração), uma empresa brasileira com sede em Araxá, Minas Gerais, que completou 70 anos em 2025. A CBMM transformou nióbio de curiosidade geológica em produto de alta tecnologia, com aplicações em aços especiais, ligas aeroespaciais e até baterias de lítio. Esse é o modelo a seguir.

CBMM e Vale: as empresas que podem liderar a corrida brasileira

A CBMM já demonstrou que é possível construir uma cadeia verticalizada de minerais estratégicos no Brasil. A empresa não apenas extrai nióbio — ela desenvolve tecnologia de aplicação, possui laboratórios de P&D e exporta produtos de alto valor agregado para mais de 40 países. O relatório de sustentabilidade de 2024 da CBMM reforça o foco em inovação e minerais para a transição energética.

A Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, possui projetos relacionados a terras-raras como subproduto de suas operações. A Serra dos Carajás, no Pará, contém depósitos significativos. Mas a Vale historicamente priorizou commodities de volume (ferro, níquel) sobre minerais de nicho.

Empresas menores também estão na corrida. A Serra Verde, em Goiás, começou a produzir concentrado de terras-raras em 2024, tornando-se potencialmente a primeira mina dedicada de terras-raras no Brasil em escala comercial. A empresa tem parceria com investidores internacionais e mira exportação para EUA e Europa.

O desafio é escalar. Construir uma mina de terras-raras leva de 7 a 15 anos do estudo de viabilidade à produção plena. O processamento exige reagentes químicos, gestão de rejeitos radioativos (muitos depósitos contêm tório e urânio) e expertise que o Brasil ainda não domina em escala industrial.

Oportunidade ou armadilha: os riscos que ninguém quer discutir

A narrativa otimista é sedutora: o Brasil tem as reservas, os EUA têm a demanda, basta conectar os dois. Mas a história econômica brasileira ensina cautela. O país já viveu ciclos de exportação de matérias-primas — açúcar, borracha, café, minério de ferro — que geraram riqueza temporária sem criar indústria de transformação permanente.

O risco principal é virar fornecedor de minério bruto. Se o Brasil exportar concentrado de terras-raras para ser processado nos EUA ou na China, captura uma fração mínima do valor. O quilo de minério bruto vale centavos. O quilo de óxido de neodímio separado vale US$ 60-80. O ímã de neodímio acabado vale centenas de dólares por quilo. O valor se multiplica a cada etapa de processamento.

Outro risco é ambiental. A mineração de terras-raras gera rejeitos tóxicos e, em muitos depósitos, material radioativo. A China aceitou esse custo ambiental durante décadas — Baotou, na Mongólia Interior, tem um lago artificial de rejeitos tóxicos visível do espaço. O Brasil, com a Amazônia e o Cerrado como biomas sensíveis, precisa de padrões rigorosos. Mas rigor ambiental custa dinheiro e tempo, o que reduz competitividade de preço.

Há também o risco geopolítico. Alinhar-se exclusivamente com os EUA na cadeia de terras-raras pode irritar a China, que é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, comprando soja, minério de ferro e petróleo. O equilíbrio diplomático é delicado. Brasília precisa evitar ser forçada a escolher lados.

O que isso significa para a economia brasileira: empregos, investimento e soberania

Se feito corretamente, o desenvolvimento da cadeia de terras-raras pode gerar entre 15 mil e 50 mil empregos diretos e indiretos no Brasil ao longo da próxima década, segundo estimativas de consultorias do setor mineral. Engenheiros de minas, químicos de processamento, técnicos ambientais, operadores logísticos — a demanda por mão de obra qualificada seria significativa.

O investimento necessário é grande. Construir capacidade de mineração e processamento para produzir, digamos, 20 mil toneladas de REO por ano (cerca de 5-6% do mercado global) exigiria algo entre US$ 3 e 5 bilhões em investimentos ao longo de uma década. Esse dinheiro pode vir de parcerias público-privadas, fundos americanos, europeus ou japoneses — todos desesperados por alternativas à China.

O Japão, aliás, é um parceiro natural. Depois do susto de 2010, quando a China cortou exportações, o Japão investiu pesado em reciclagem de terras-raras e diversificação de fornecedores. A JOGMEC (agência japonesa de metais e energia) já tem projetos de cooperação com países da América do Sul e da África.

A questão fundamental é soberania tecnológica. O Brasil pode continuar sendo exportador de matéria-prima bruta, como faz com soja e minério de ferro, ou pode usar as terras-raras como alavanca para subir na cadeia de valor. Separar óxidos, produzir ligas, fabricar ímãs permanentes — cada passo agrega valor e cria empregos de maior qualificação.

O prazo é agora: por que os próximos 3-5 anos são decisivos

A janela de oportunidade não é eterna. Outros países estão se movendo. A Austrália tem a Lynas Rare Earths, que já opera a maior refinaria fora da China na Malásia e está construindo capacidade nos EUA. O Canadá tem projetos avançados em Quebec e nos Territórios do Noroeste. A Índia está reativando projetos dormentes.

Se o Brasil demorar mais uma década para tirar projetos do papel, quando a produção começar, o mercado já terá se reorganizado sem ele. A vantagem competitiva de ter grandes reservas se dilui quando outros países constroem cadeia de processamento antes.

O prazo de Trump — agosto de 2026 — é simbólico, mas sinaliza urgência real. Os EUA estão ativamente buscando fornecedores alternativos e estão dispostos a colocar dinheiro na mesa. O Departamento de Estado americano já sinalizou interesse em acordos bilaterais de minerais críticos com países da América Latina. O Brasil precisa estar preparado para essas conversas com projetos concretos, não apenas reservas no subsolo.

A corrida das terras-raras não é sobre geologia. É sobre capacidade industrial, vontade política e visão estratégica. O Brasil tem a primeira. Falta demonstrar as outras duas.

Vale lembrar que a China não construiu seu domínio por acidente. Foram quatro décadas de política industrial coordenada: subsídios, formação de engenheiros especializados, tolerância ambiental calculada e controle estatal da cadeia. Replicar isso em regime democrático e com padrões ambientais modernos é mais difícil, mas não impossível. A Austrália está provando que dá para competir com regras claras. O Brasil pode fazer o mesmo — se tratar terras-raras como projeto de Estado, não como mais uma commodity para exportar in natura.

O momento é raro. A combinação de tensão geopolítica, demanda crescente e capital disponível cria uma janela que o Brasil não viu desde o boom do pré-sal. A diferença é que, desta vez, o recurso no subsolo não basta. O que vai definir se o Brasil captura valor ou repete o padrão colonial de exportação bruta é a decisão política de investir em processamento, em gente qualificada e em diplomacia inteligente que mantenha portas abertas com Washington e Pequim ao mesmo tempo.

Esse tema foi destaque no China to Watch — onde acompanhamos de perto os movimentos geopolíticos entre China, EUA e os países que ficam no meio do fogo cruzado. Assine a newsletter para não perder as próximas análises.

Fontes

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