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Tecnologia

Kimi, Zhipu e MiniMax: as startups de IA chinesas que ninguém conhece no Brasil

person Phelipe Xavier schedule 10 min read calendar_today 26 de fevereiro de 2026
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Startups de IA chinesas Kimi Zhipu MiniMax

Quando se fala em IA chinesa, o primeiro nome que aparece é a DeepSeek. Justo — ela chacoalhou o mercado global em janeiro de 2025. Mas a China tem pelo menos três outras empresas de IA que estão crescendo rápido, captando bilhões e, em dois casos, já abriram capital na bolsa de Hong Kong. E quase ninguém no Brasil sabe quem são.

Estamos falando da Moonshot AI (criadora do Kimi), da Zhipu AI (agora Z.ai) e da MiniMax. Juntas, essas três companhias fazem parte do grupo que investidores chineses chamam de "AI Tigers" — as startups de IA da China em 2026 que estão definindo o futuro do setor.

Neste artigo, vamos abrir cada uma delas: quem fundou, quanto vale, qual modelo produz e — a parte que interessa pra quem trabalha com tecnologia no Brasil — como acessar essas ferramentas.

Moonshot AI: a criadora do Kimi, o chatbot que desafiou o Ernie Bot

A Moonshot AI foi fundada em março de 2023 por Yang Zhilin, Zhou Xinyu e Wu Yuxin — três colegas da Universidade de Tsinghua. O nome da empresa é uma referência ao álbum The Dark Side of the Moon do Pink Floyd, favorito de Yang. A sede fica em Pequim e a equipe tinha cerca de 200 funcionários em 2024 (Wikipedia).

O produto principal é o Kimi, um chatbot lançado em outubro de 2023 que se diferenciou logo de cara por processar até 200 mil caracteres chineses por conversa — uma janela de contexto enorme para a época. O Kimi rapidamente se tornou o concorrente mais próximo do Ernie Bot do Baidu no mercado chinês (Wikipedia).

Em janeiro de 2026, a Moonshot lançou o Kimi K2.5, uma atualização multimodal que adicionou visão nativa ao modelo por meio de um codificador de visão de 400 milhões de parâmetros chamado MoonViT. O modelo processa imagens e vídeo, permitindo tarefas como replicar jornadas de usuário em websites a partir de demonstrações em vídeo (Wikipedia).

O objetivo declarado de Yang Zhilin é ambicioso: construir foundation models para alcançar AGI. Ele definiu três marcos — contexto longo, modelo de mundo multimodal e uma arquitetura escalável capaz de auto-aperfeiçoamento contínuo sem input humano (Wikipedia).

Além do chatbot, a linha de produtos inclui o Kimi Researcher (pesquisa automatizada), Kimi Agent (automação de tarefas), Kimi Code (assistente de programação) e Kimi Audio (processamento de voz). A empresa também desenvolveu o Kimina Prover, voltado para demonstrações matemáticas formais. A Moonshot chegou a explorar o mercado americano em 2024 com um app de role-playing chamado Ohai e um gerador de videoclipes musicais chamado Noisee, embora oficialmente tenha negado planos de expansão internacional (Wikipedia).

O dinheiro por trás da Moonshot

A trajetória de financiamento da Moonshot é impressionante para uma empresa com menos de três anos:

  • Rodada inicial: US$60 milhões, avaliação de US$300 milhões, com 40 funcionários (Wikipedia)
  • Fevereiro de 2024: US$1 bilhão liderado pelo Alibaba, avaliação de US$2,5 bilhões (Wikipedia)
  • Agosto de 2024: US$300 milhões com Tencent e Gaorong Capital, avaliação de US$3,3 bilhões (Wikipedia)
  • Outubro de 2025: Rodada de aproximadamente US$600 milhões liderada pela IDG Capital, avaliação pré-money de US$3,8 bilhões (Wikipedia)

Em menos de três anos, a Moonshot saiu de US$300 milhões para US$3,8 bilhões de avaliação. A empresa permanece privada — diferente das outras duas que veremos a seguir.

Zhipu AI (Z.ai): a veterana que saiu da Tsinghua e abriu capital

A Zhipu AI é a mais antiga das três. Fundada em 2019 por Tang Jie e Li Juanzi, pesquisadores da Universidade de Tsinghua, a empresa começou como um spin-off acadêmico. Hoje opera com mais de 800 funcionários e é comandada pelo CEO Zhang Peng (Wikipedia).

A International Data Corporation (IDC) classifica a Zhipu como a terceira maior player de LLMs no mercado chinês de IA. Em 2025, a empresa passou por um rebranding internacional e adotou o nome Z.ai (Wikipedia).

O carro-chefe é a família de modelos GLM (General Language Model). A evolução recente é rápida:

  • GLM-4.5 e GLM-4.5 Air (julho 2025): rodando em apenas oito GPUs Nvidia H20 (Wikipedia)
  • GLM-4.5V (agosto 2025): modelo visão-linguagem com 106 bilhões de parâmetros (Wikipedia)
  • GLM-4.6 (setembro 2025): primeiro modelo a integrar quantização FP8 e Int4 em chips Cambricon — hardware 100% chinês (Wikipedia)
  • GLM-5 (fevereiro 2026): a geração mais recente (Wikipedia)

Um detalhe que poucos notaram: a Z.ai conseguiu rodar seus modelos em processadores Ascend da Huawei, além dos chips Cambricon e Moore Threads. Isso significa que a empresa está se preparando para um cenário em que o acesso a GPUs Nvidia seja completamente cortado.

O IPO da Z.ai em Hong Kong

Em 8 de janeiro de 2026, a Z.ai realizou seu IPO na Bolsa de Hong Kong (código SEHK: 2513), tornando-se a primeira grande empresa de LLM da China a abrir capital (Wikipedia).

Antes do IPO, a empresa já tinha levantado rodadas significativas:

  • 2023: 2,5 bilhões de yuans (~US$350 milhões) de Alibaba, Tencent, Meituan, Ant Group, Xiaomi e HongShan (Wikipedia)
  • Maio de 2024: US$400 milhões com participação da Prosperity7 Ventures (Arábia Saudita), avaliação de ~US$3 bilhões (Wikipedia)

Em fevereiro de 2026, o JPMorgan Chase recomendou a compra de ações da Z.ai e da MiniMax para investidores (Wikipedia).

Um fato que complica o cenário: em janeiro de 2025, o Departamento de Comércio dos EUA colocou a Zhipu na Entity List, a lista negra de exportação americana, citando preocupações de segurança nacional (Wikipedia).

MiniMax: de SenseTime ao Hailuo AI e à bolsa de Hong Kong

A MiniMax foi fundada em dezembro de 2021 por Yan Junjie, Yang Bin e Zhou Yucong — todos vindos da SenseTime, gigante chinesa de visão computacional. A sede fica em Xangai e a equipe tem mais de 200 funcionários (Wikipedia).

O financiamento inicial veio de um lugar inesperado: a MiHoYo, a empresa por trás do jogo Genshin Impact. Depois, Alibaba, Tencent, Hillhouse Investment, HongShan e IDG Capital entraram nas rodadas seguintes. Em março de 2024, o Alibaba liderou uma rodada de US$600 milhões que avaliou a MiniMax em US$2,5 bilhões (Wikipedia).

Em 9 de janeiro de 2026 — um dia após a Z.ai — a MiniMax realizou seu IPO na Bolsa de Hong Kong (código SEHK: 100) (Wikipedia).

O diferencial da MiniMax está nos produtos voltados ao consumidor. O primeiro app da empresa, Glow, foi lançado em outubro de 2022 e permitia criar personagens virtuais para conversar sobre qualquer tema. Em quatro meses, atingiu 5 milhões de usuários. Depois de ser removido das lojas chinesas em 2023, renasceu como Talkie (mercado internacional, junho de 2023) e Xing Ye (mercado chinês, setembro de 2023). O Talkie chegou a 11 milhões de usuários ativos mensais e figurou entre os apps de entretenimento gratuitos mais baixados nos EUA, segundo o Wall Street Journal (Wikipedia).

Na parte de modelos, a empresa lançou o MiniMax-M2.5 em fevereiro de 2026, junto com a variante M2.5-Lightning. O portfólio ainda inclui o Hailuo AI — plataforma de geração de vídeo, áudio e música que compete diretamente com o Sora da OpenAI. O modelo de vídeo video-01 foi lançado em setembro de 2024, e a versão atual é o Hailuo 2.3 (Wikipedia).

A MiniMax também tem o Speech 2.6 (text-to-speech com suporte para mais de 30 idiomas) e o Music 2.0 — ferramentas multimodais que poucas empresas de IA oferecem em um pacote único.

O que cada startup faz de diferente

Se você olhar de longe, as três parecem iguais: startups chinesas de IA com modelos de linguagem. Mas cada uma ocupa um nicho distinto:

  • Moonshot AI (Kimi): foco em contexto longo e agentes. O Kimi K2.5 com visão nativa e capacidade de executar tarefas autônomas em websites posiciona a empresa na corrida por agentes de IA. Permanece privada.
  • Z.ai (Zhipu/GLM): foco em independência de hardware. É a única das três que roda nativamente em chips 100% chineses (Cambricon, Moore Threads, Huawei Ascend). Com 800+ funcionários, é a maior e mais diversificada. Já é pública.
  • MiniMax: foco em aplicações para o consumidor final. Talkie, Hailuo AI, geração de música e vídeo. É a empresa com mais tração de usuários fora da China. Também já é pública.

Acessibilidade para desenvolvedores brasileiros

Aqui está a parte prática. Se você trabalha com tecnologia no Brasil, o que consegue usar dessas empresas hoje?

Moonshot AI / Kimi: a empresa oferece API através da plataforma platform.moonshot.cn. O acesso é voltado principalmente ao mercado chinês e requer registro com número de telefone chinês na maioria dos casos. O Kimi chatbot está disponível em kimi.moonshot.cn para uso direto. Para desenvolvedores brasileiros, a barreira de entrada é média — a documentação é majoritariamente em chinês.

Z.ai / Zhipu: a plataforma bigmodel.cn oferece acesso às APIs dos modelos GLM. Após o rebranding para Z.ai, a empresa expandiu presença internacional com escritórios no Oriente Médio, Reino Unido, Singapura e Malásia (Wikipedia). Os modelos GLM têm versões open-source disponíveis no Hugging Face, o que facilita a experimentação sem depender da API chinesa. O GLM-4.5 Air é uma opção leve para quem quer testar.

MiniMax: é a mais acessível das três para brasileiros. A plataforma minimax.io tem interface em inglês. O Hailuo AI (hailuoai.video) permite geração de vídeos diretamente pelo navegador. O Talkie funciona globalmente. As APIs de texto, voz e vídeo estão disponíveis para desenvolvedores internacionais.

Em termos de código aberto, a Z.ai é a que mais contribui — os modelos GLM estão disponíveis para download e fine-tuning. A MiniMax publicou o MiniMax-01 com pesos abertos em janeiro de 2025. A Moonshot mantém seus modelos mais fechados.

O contexto geopolítico que afeta tudo

Não dá pra falar dessas empresas sem mencionar o elefante na sala: a guerra tecnológica EUA-China. A Zhipu já está na Entity List americana. Em fevereiro de 2026, a Anthropic acusou tanto a Moonshot AI quanto a MiniMax de usar milhares de contas fraudulentas para gerar milhões de conversas com o Claude para treinar seus próprios modelos — um processo chamado "destilação" (Wikipedia, Wikipedia).

Essas acusações adicionam um fator de risco para quem adota essas ferramentas: regulações podem mudar rapidamente. Para desenvolvedores brasileiros, a estratégia mais segura é usar modelos open-weight que possam rodar localmente, independente do que aconteça entre Washington e Pequim.

Por que isso importa para o Brasil

O ecossistema de IA chinês está se diversificando em velocidade que o Brasil mal acompanha. Enquanto a maioria dos desenvolvedores brasileiros conhece OpenAI, Google e talvez a DeepSeek, há pelo menos três outras empresas — duas delas já públicas em Hong Kong — produzindo modelos competitivos com APIs acessíveis e, em vários casos, código aberto.

A Moonshot AI está avaliada em US$3,8 bilhões. A Z.ai e a MiniMax estão listadas em bolsa. O JPMorgan está recomendando suas ações. Não são projetos experimentais — são empresas que estão moldando como a IA vai funcionar nos próximos anos.

Para startups brasileiras que dependem de APIs de IA, conhecer essas alternativas não é curiosidade — é vantagem competitiva. Especialmente quando a briga de preços entre provedores chineses está derrubando o custo de acesso a modelos de ponta.

Esse tipo de análise é destaque no China to Watch, a newsletter que mapeia o que acontece na China antes de virar notícia no Brasil. Assine em chinato.watch.

Fontes

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