A maior joalheria do mundo tem um problema de US$5.200
O ouro bateu US$5.204 por onça troy em fevereiro de 2026 (Yahoo Finance). Para a Chow Tai Fook — a maior rede de joalherias do planeta, com mais de 7.000 lojas espalhadas pela China, Hong Kong, Macau e outros nove países — isso significa uma coisa: repassar o custo ao consumidor. E o repasse não é pequeno. Estamos falando de aumentos da ordem de 33% nos preços das peças de ouro ao longo dos últimos meses, acompanhando a disparada do metal que passou de cerca de US$3.900 no terceiro trimestre de 2025 para os patamares atuais.
Para entender o tamanho do impacto, é preciso entender o tamanho da Chow Tai Fook. E para entender a Chow Tai Fook, é preciso entender o que o ouro significa para os chineses — algo que vai muito além de investimento ou ostentação.
Chow Tai Fook: 97 anos vendendo ouro na China
A história começa em 1929, em Guangzhou, quando Chow Chi-yuen abriu uma pequena loja de joias. O nome escolhido — 周大福, Zhōu Dà Fú — significa literalmente "Zhou, grande fortuna" (Wikipedia/Chow Tai Fook). Era uma promessa e um presságio. Nos anos seguintes, a loja migrou para Macau e depois para Hong Kong, fugindo da instabilidade da guerra e da revolução.
Quem transformou a joalheria em império foi Cheng Yu-tung, genro do fundador, que assumiu o comando em 1956. Sob sua liderança, a Chow Tai Fook se diversificou em um conglomerado com braços em imobiliário, hotelaria, energia, telecomunicações e cassinos. A New World Development, uma de suas subsidiárias, está listada na Bolsa de Hong Kong desde 1972. A divisão de joias foi listada separadamente em 2011, sob o código SEHK: 1929 — em homenagem ao ano de fundação.
Hoje, o grupo é controlado pela família Cheng, com Henry Cheng à frente. A rede de joalherias opera mais de 7.000 pontos de venda, a maioria na China continental. Para colocar em perspectiva: a Tiffany & Co., adquirida pela LVMH em 2021 por US$15,8 bilhões, opera cerca de 300 lojas globalmente. A Cartier tem pouco mais de 250. A Chow Tai Fook tem mais lojas do que as dez maiores joalherias ocidentais combinadas.
A empresa se tornou a maior joalheria do mundo em receita, à frente de Signet Jewelers (dona da Kay Jewelers e Zales nos EUA) e de concorrentes chinesas como Chow Sang Sang e Luk Fook. Seu modelo de negócio depende fundamentalmente de uma coisa: ouro. Não diamantes, não pedras preciosas — ouro puro de 24 quilates, o padrão preferido pelo consumidor chinês.
Por que o ouro vale tanto para os chineses
Na cultura ocidental, joias de ouro são acessórios. Na China, o ouro é um sistema financeiro paralelo, um amuleto de proteção e um contrato social — tudo ao mesmo tempo.
Comece pelos casamentos. Na tradição chinesa, o noivo presenteia a família da noiva com joias de ouro: pulseiras, colares, brincos e, em muitas regiões, um colar de dragão-fênix (龙凤项链). Não é decoração — é o pin jin (聘金), o "preço da noiva", um compromisso financeiro formal que sinaliza a seriedade da proposta. Em cidades de segundo e terceiro nível na China, famílias gastam entre 30.000 e 100.000 yuans (US$4.100 a US$13.700) apenas em ouro para o casamento.
Depois, há o Ano Novo Chinês. Presentes de ouro para bebês e crianças — especialmente pingentes do signo do zodíaco — são uma tradição centenária. O ouro representa fu (福, fortuna) e shou (寿, longevidade). Uma avó que dá um bracelete de ouro ao neto recém-nascido não está dando um presente — está transferindo uma bênção e, ao mesmo tempo, uma reserva de valor.
E é justamente como reserva de valor que o ouro cumpre seu papel mais prático na vida chinesa. A China não permite livre conversão de yuans em moeda estrangeira para a maioria dos cidadãos. O mercado imobiliário, que por décadas foi a principal forma de poupança das famílias, está em crise desde 2021. A bolsa de Xangai é volátil e pouco confiável para o investidor médio. O que sobra? Ouro.
Não por acaso, a Shanghai Gold Exchange (SGE) é a maior bolsa de ouro físico do mundo. Em 2024, o preço do ouro na SGE chegou a operar com prêmio de US$30 a US$50 por onça acima do preço internacional — reflexo da demanda interna que excedia a oferta disponível no mercado chinês.
Ouro a US$5.200: como chegamos aqui
O preço do ouro mais que dobrou em relação à média de 2024. Segundo o World Gold Council, a média do preço em 2024 foi de US$2.386 por onça, já 23% acima da média de 2023 (World Gold Council, Gold Demand Trends Full Year 2024). Em fevereiro de 2026, o metal opera acima de US$5.200 — uma valorização de cerca de 118% em dois anos.
Três forças explicam essa escalada:
1. Bancos centrais comprando ouro como nunca. Em 2024, bancos centrais ao redor do mundo compraram 1.044 toneladas de ouro — o terceiro ano consecutivo acima de 1.000 toneladas. No quarto trimestre de 2024, as compras aceleraram drasticamente para 333 toneladas em apenas três meses. O Banco Popular da China (PBoC) tem sido um dos maiores compradores, adicionando ouro às suas reservas de forma consistente como parte de uma estratégia de diversificação para reduzir exposição ao dólar americano.
2. Incerteza geopolítica e econômica. Tensões comerciais entre EUA e China, conflitos no Oriente Médio, sanções contra a Rússia e a política tarifária do governo Trump em 2025-2026 empurraram investidores institucionais para ativos de proteção. O ouro voltou a cumprir seu papel clássico de porto seguro em tempos de turbulência.
3. Investimento crescente em ETFs e barras. O investimento total em ouro atingiu 1.180 toneladas em 2024, um aumento de 25% em relação a 2023. Os ETFs de ouro, que vinham perdendo participação desde 2020, estabilizaram em 2024 e voltaram a atrair capital em 2025, amplificando a pressão compradora.
A demanda total por ouro em 2024 atingiu o recorde de 4.974 toneladas, movimentando US$382 bilhões — o maior valor anual já registrado. A oferta total, somando mineração e reciclagem, foi de 4.974 toneladas, praticamente em equilíbrio com a demanda. Qualquer choque adicional de demanda — como a aceleração das compras por bancos centrais em 2025 — encontrou uma oferta inelástica, empurrando preços para cima.
O paradoxo da joalheria: preço sobe, volume cai, receita dispara
Aqui está a ironia do mercado de ouro em 2024-2026. O consumo global de joias de ouro caiu 11% em volume, para 1.877 toneladas, em 2024. Os consumidores simplesmente não conseguiam comprar a mesma quantidade de ouro com os preços em alta. Mas o gasto total em joias de ouro subiu 9%, para US$144 bilhões. As pessoas compraram menos gramas, mas pagaram mais por cada uma (World Gold Council).
Para a Chow Tai Fook, esse paradoxo se traduz em uma equação complexa. A empresa vende predominantemente ouro de 24 quilates, precificado pelo peso. Quando o ouro sobe 33%, o preço de um colar de 10 gramas salta proporcionalmente. As margens da empresa sobre o ouro puro são relativamente finas — geralmente entre 8% e 15% sobre o preço spot, dependendo do design e da marca. O lucro vem do volume e da taxa de trabalho artesanal (gongfei, 工费) cobrada sobre cada peça.
Com ouro acima de US$5.000, um bracelete simples de 20 gramas que custava cerca de 6.000 yuans em 2023 agora custa mais de 8.000 yuans. Para muitas famílias chinesas — especialmente aquelas nas cidades menores, onde a tradição de ouro é mais forte — isso representa um impacto direto no orçamento de casamentos e presentes festivos.
A Chow Tai Fook tem respondido de duas formas. Primeiro, lançando peças com design mais elaborado e menor gramatura — a coleção "Heritage" e a linha "Joie", por exemplo, valorizam o trabalho artesanal sobre a massa de ouro, permitindo preços mais acessíveis por peça. Segundo, expandindo sua presença online e em cidades de terceiro e quarto nível, onde a concorrência é menor e a lealdade à marca é forte.
O PBoC e a corrida global pelo ouro
O Banco Popular da China não está comprando ouro por capricho. A estratégia faz parte de um realinhamento estrutural das reservas internacionais chinesas, que historicamente são dominadas por títulos do Tesouro americano. A China detém mais de US$760 bilhões em Treasuries — mas vem reduzindo essa posição gradualmente desde 2018.
O raciocínio é geopolítico: após as sanções ocidentais que congelaram US$300 bilhões em reservas do banco central russo em 2022, a China percebeu que ativos denominados em dólar e mantidos em custódia ocidental representam um risco. Ouro físico, armazenado em cofres no território nacional, é imune a sanções.
E a China não está sozinha. Turquia, Índia, Polônia, Cingapura e dezenas de outros bancos centrais aceleraram compras de ouro nos últimos três anos. O movimento é tão significativo que o World Gold Council o descreve como uma "mudança estrutural" na demanda global por ouro.
Para o mercado de joias, as compras dos bancos centrais têm um efeito colateral direto: elas competem pela mesma oferta de ouro físico disponível. Quando um banco central compra 333 toneladas em um trimestre, como ocorreu no Q4 de 2024, isso é ouro que não vai para joalherias, fundições ou ETFs. A pressão sobre os preços é inevitável.
O que muda para investidores brasileiros
O Brasil não é um mercado tradicional de joias de ouro nos moldes chineses, mas a disparada do metal precioso afeta investidores brasileiros de várias formas.
Primeiro, há o ouro como ativo de investimento. O contrato de ouro na B3 (OZ1D) acompanha os preços internacionais, ajustados pelo câmbio real/dólar. Com o ouro acima de US$5.200 e o dólar em patamares elevados frente ao real, o investidor brasileiro que comprou ouro há dois anos viu seu patrimônio mais que dobrar em reais. ETFs internacionais como o SPDR Gold Shares (GLD) e o iShares Gold Trust (IAU) oferecem exposição sem necessidade de custódia física.
Segundo, empresas brasileiras de mineração de ouro — como a Aura Minerals, que opera no Brasil, México e Honduras — se beneficiam diretamente dos preços elevados. As margens operacionais de mineradoras de ouro se expandem significativamente quando o preço do metal sobe, já que os custos de extração (AISC, all-in sustaining cost) não acompanham na mesma proporção.
Terceiro, o ouro em alta afeta o câmbio e os fluxos de capital. A demanda chinesa por ouro drena dólares do sistema financeiro global, enquanto a diversificação de reservas pelo PBoC reduz a demanda por Treasuries americanos — o que, em última instância, pode pressionar o dólar e afetar o real.
Para quem acompanha a China, a relação é direta: o apetite chinês por ouro, seja de consumidores em joalherias ou do banco central em cofres, é hoje um dos principais vetores de formação de preço do metal no mundo.
7.000 lojas, 97 anos, um metal
A Chow Tai Fook sobreviveu a guerras, revoluções, crises financeiras e pandemias. Fez isso vendendo a mesma coisa que vende desde 1929: ouro. O nome da empresa — "grande fortuna" — nunca foi tão literal. Com o metal nos níveis mais altos da história, cada grama nas vitrines de suas 7.000 lojas vale mais do que nunca.
Mas a fortuna tem dois lados. Preços altos significam receitas nominais maiores, mas também significam consumidores comprando menos, peças menores e casais reconsiderando a tradição do pin jin. O desafio da maior joalheria do mundo nos próximos meses será equilibrar tradição e acessibilidade — vender a bênção do ouro sem que ela custe a fortuna inteira.
O que parece certo é que o ouro não vai ficar barato tão cedo. Com bancos centrais acumulando, tensões geopolíticas persistindo e a economia chinesa buscando alternativas ao dólar, a pressão compradora continua forte. A Chow Tai Fook, com quase um século de experiência lendo o mercado de ouro chinês, sabe disso melhor do que ninguém.
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