O dia em que a Huawei perdeu tudo — e decidiu não morrer
Em 15 de maio de 2019, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos adicionou a Huawei Technologies à Entity List, a lista de restrições comerciais mais severa do governo americano. Na prática, qualquer empresa americana que quisesse vender tecnologia para a Huawei precisaria de uma licença especial — que raramente seria concedida. De um dia para o outro, a segunda maior fabricante de smartphones do mundo perdeu acesso ao Google Mobile Services, ao sistema Android com apps do Google, aos chips fabricados pela TSMC e à arquitetura de processadores da ARM Holdings.
A justificativa oficial dos EUA era segurança nacional. A Huawei seria, segundo Washington, um risco por seus supostos vínculos com o governo chinês e o Exército de Libertação Popular. A empresa sempre negou as acusações. Mas a motivação geopolítica era evidente: a Huawei liderava a corrida global pelo 5G, com tecnologia mais barata e, em muitos aspectos, mais avançada que a de rivais americanas e europeias. Impedir o avanço da Huawei era impedir o avanço da infraestrutura digital chinesa no mundo.
O que aconteceu depois é um dos casos mais extraordinários de resiliência corporativa da última década. Em 2024, a Huawei reportou receita estimada de 880 bilhões de yuan — aproximadamente US$121 bilhões —, um recorde histórico que supera até os números anteriores às sanções. A empresa não apenas sobreviveu: cresceu.
A cronologia do cerco: como as sanções se empilharam
Para entender a dimensão do problema, é preciso acompanhar a sequência de golpes que a Huawei recebeu entre 2019 e 2020.
Em maio de 2019, a inclusão na Entity List cortou o acesso ao ecossistema Google. Smartphones Huawei deixaram de vir com Gmail, YouTube, Google Maps e a Play Store. Para consumidores fora da China, onde esses serviços são essenciais, isso era uma sentença de morte comercial. A participação de mercado global da Huawei em smartphones despencou de 18% para menos de 4% em dois anos.
Em maio de 2020, o golpe se aprofundou. Os EUA expandiram as restrições para proibir qualquer fundição de chips que usasse equipamentos americanos de fabricar semicondutores para a Huawei. Isso atingiu diretamente a TSMC, em Taiwan, que produzia os chips Kirin da subsidiária HiSilicon. A TSMC cortou o fornecimento em setembro de 2020. Sem chips de ponta, a Huawei não conseguia produzir smartphones competitivos.
A ARM Holdings, empresa britânica cujas arquiteturas são a base de praticamente todos os processadores mobile do planeta, também suspendeu licenciamento para a Huawei. Fornecedores de software de design de chips (EDA), como Cadence e Synopsys, seguiram o mesmo caminho. A Huawei ficou sem o sistema operacional dominante, sem o fabricante de chips, sem a arquitetura de processadores e sem as ferramentas para projetar novos chips.
Na teoria, era o fim.
O plano B que já existia: HarmonyOS não nasceu do desespero
A resposta mais visível da Huawei às sanções foi o HarmonyOS, sistema operacional próprio lançado oficialmente em agosto de 2019, apenas três meses após a inclusão na Entity List. Mas chamar o HarmonyOS de reação às sanções seria impreciso. O desenvolvimento começou em 2012, sete anos antes do banimento.
Ren Zhengfei, fundador da Huawei, é um ex-engenheiro militar que sempre operou com mentalidade de contingência. Dentro da empresa, existia o conceito de 备胎计划 bèitāi jìhuà, o plano do estepe — tecnologias desenvolvidas internamente para o caso de fornecedores externos serem cortados. O HarmonyOS era um desses estepes.
As primeiras versões do HarmonyOS rodavam sobre uma base modificada do Android Open Source Project (AOSP), o que gerou críticas de que seria apenas um Android disfarçado. Mas a Huawei investiu pesado na transição. Em 2024, lançou o HarmonyOS NEXT, versão que eliminou completamente o kernel Linux e a compatibilidade com apps Android. O sistema roda sobre o HongMeng Kernel, um microkernel proprietário desenvolvido do zero.
Os números são expressivos. Até o final de 2024, o HarmonyOS ultrapassou 1 bilhão de dispositivos ativados globalmente, incluindo smartphones, tablets, smartwatches, smart TVs, sistemas automotivos e dispositivos IoT. Na China, o sistema superou o iOS em participação de mercado, tornando-se o segundo sistema operacional móvel do país, atrás apenas do Android.
O ecossistema de aplicativos cresceu rapidamente. Mais de 15 mil apps nativos foram desenvolvidos para o HarmonyOS NEXT, incluindo versões de grandes plataformas chinesas como WeChat, Alipay, Douyin (TikTok chinês), Meituan e Xiaohongshu. Para o mercado chinês, onde Google nunca operou, a ausência dos serviços americanos é irrelevante. A questão sempre foi internacional — e nesse front, a Huawei recuou estrategicamente, priorizando o mercado doméstico.
Kirin 9000S: o chip que não deveria existir
Se o HarmonyOS foi a resposta no software, o Kirin 9000S foi a resposta no hardware — e a mais surpreendente.
Em agosto de 2023, a Huawei lançou o Mate 60 Pro sem nenhum anúncio prévio. Analistas desmontaram o aparelho e descobriram algo que o mercado considerava impossível: um chip Kirin 9000S fabricado em processo de 7 nanômetros pela SMIC (Semiconductor Manufacturing International Corporation), a maior fundição chinesa.
A SMIC, também sob sanções americanas, não deveria ter capacidade de produzir chips em 7nm. Equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV) da holandesa ASML, necessários para processos abaixo de 7nm, são proibidos de exportação para a China. A SMIC conseguiu usando litografia ultravioleta profunda (DUV), uma técnica mais antiga, com múltiplas exposições — processo mais lento, mais caro e com rendimento menor, mas funcional.
O Kirin 9000S não compete em desempenho bruto com os chips mais recentes da Qualcomm ou Apple, fabricados em 3nm pela TSMC. Mas é bom o suficiente. O Mate 60 Pro suporta 5G (capacidade que a Huawei havia perdido em modelos anteriores), roda aplicações complexas e vendeu milhões de unidades na China. O lançamento coincidiu, simbolicamente, com a visita da secretária de Comércio dos EUA, Gina Raimondo, a Beijing.
Em 2024, a Huawei avançou para o Kirin 9010, e há relatos de desenvolvimento do Kirin 9020 em processos ainda mais refinados. A mensagem era clara: as sanções atrasaram, mas não pararam o desenvolvimento de semicondutores chineses.
Receita recorde: de onde vêm os US$121 bilhões
A Huawei não é apenas uma empresa de celulares. Na verdade, smartphones representam apenas uma fatia da receita. A estrutura da empresa se divide em três grandes pilares — e entender isso explica como ela resistiu.
O primeiro pilar é a divisão de infraestrutura de telecomunicações, que inclui equipamentos para redes 4G, 5G e soluções para operadoras. A Huawei continua sendo a maior fornecedora global de equipamentos de telecomunicações, com participação de mercado superior a 30%, à frente de Ericsson e Nokia. Apesar de ter sido banida de redes 5G em países como EUA, Austrália, Reino Unido e partes da Europa, a empresa mantém contratos massivos na Ásia, África, Oriente Médio e América Latina. Essa divisão sozinha gera dezenas de bilhões em receita anual.
O segundo pilar é a divisão de soluções empresariais, incluindo computação em nuvem (Huawei Cloud), inteligência artificial, data centers e soluções para cidades inteligentes. A Huawei Cloud cresceu agressivamente no mercado chinês e em mercados emergentes, competindo com Alibaba Cloud e Tencent Cloud. A empresa também desenvolve chips de IA da série Ascend, que competem com as GPUs da NVIDIA — outra categoria sob restrições americanas.
O terceiro pilar é a divisão de consumo e automotiva. Além de smartphones e tablets, a Huawei firmou parcerias com montadoras chinesas para fornecer sistemas de direção inteligente, cockpits digitais e plataformas de veículos elétricos. A parceria com a Seres (anteriormente SF Motors) produziu a marca AITO, cujos SUVs elétricos vendem dezenas de milhares de unidades por mês na China. A Huawei não fabrica carros, mas fornece o cérebro digital deles — um modelo de negócio que lembra o da Qualcomm no setor mobile.
A combinação desses três pilares explica a receita recorde. Enquanto smartphones sofreram internacionalmente, infraestrutura de telecom manteve a base, cloud e IA cresceram, e o setor automotivo adicionou uma nova fonte de receita que não existia antes das sanções.
5G: a tecnologia que os EUA tentaram conter e não conseguiram
O ponto central da disputa sempre foi o 5G. Em 2019, a Huawei detinha mais patentes essenciais de 5G do que qualquer outra empresa no mundo — cerca de 20% do total global, segundo dados da IPlytics. Banir a Huawei do 5G ocidental não eliminou essa vantagem tecnológica.
Na China, a Huawei forneceu a maior parte da infraestrutura 5G para as três operadoras nacionais: China Mobile, China Telecom e China Unicom. O país construiu mais de 3,5 milhões de estações base 5G, representando mais de 60% de todas as estações 5G do planeta. A Huawei foi a principal beneficiária desse rollout massivo.
Em mercados onde não foi banida, a Huawei continua fornecendo equipamentos 5G a preços competitivos. Em muitos países da África, Sudeste Asiático e América Latina, a alternativa à Huawei simplesmente não existe a um custo viável. Ericsson e Nokia são mais caras e, em alguns casos, menos integradas.
O resultado é paradoxal: as sanções americanas fortaleceram a posição da Huawei como campeã nacional chinesa, aceleraram o desenvolvimento tecnológico doméstico e não impediram a empresa de liderar globalmente em infraestrutura 5G.
O que empresas brasileiras podem aprender com a Huawei
A história da Huawei não é apenas sobre geopolítica sino-americana. É um caso de estudo sobre dependência tecnológica e cadeia de suprimentos — temas que deveriam preocupar qualquer empresa brasileira.
O Brasil depende quase integralmente de tecnologia estrangeira para semicondutores, sistemas operacionais, serviços de nuvem e infraestrutura de telecomunicações. Não existe um plano B nacional para nenhuma dessas categorias. Se amanhã o acesso a serviços de cloud americanos fosse restringido, ou se chips se tornassem indisponíveis por questões geopolíticas, a economia digital brasileira pararia.
A lição da Huawei não é que cada empresa precisa criar seu próprio sistema operacional. É que investimento contínuo em capacidade tecnológica interna, mesmo quando parece redundante, é seguro estratégico. A Huawei gastou mais de US$23 bilhões em pesquisa e desenvolvimento em 2023 — cerca de 23% da receita total. Esse nível de investimento em P&D é raro até entre empresas americanas.
Para empresas brasileiras que operam com a China ou dependem de cadeias de suprimentos asiáticas, a mensagem é dupla: primeiro, diversificar fornecedores é essencial, não opcional. Segundo, a China está desenvolvendo alternativas completas ao ecossistema tecnológico americano — de chips a sistemas operacionais, de cloud a IA — e essas alternativas serão cada vez mais relevantes comercialmente.
O preço da sobrevivência: o que a Huawei perdeu
É importante não romantizar a narrativa. A Huawei pagou um preço alto pelas sanções. A empresa perdeu a posição de maior fabricante de smartphones do mundo para Samsung e Apple. Sua marca Honor foi vendida em 2020 para um consórcio de empresas chinesas, justamente para que a marca pudesse operar sem as restrições da Entity List. A CFO da empresa, Meng Wanzhou, filha do fundador, ficou detida no Canadá por quase três anos em processo de extradição.
O mercado europeu de smartphones, que era o maior fora da China, praticamente desapareceu. A divisão de consumo encolheu dramaticamente entre 2020 e 2022 antes de se recuperar com o retorno dos chips Kirin. O custo de produzir chips domesticamente, com rendimento menor e tecnologia mais antiga, é significativamente maior do que comprar da TSMC.
A Huawei sobreviveu não porque as sanções falharam, mas porque a empresa tinha escala, capital, mercado doméstico imenso e uma cultura organizacional obcecada por autossuficiência. Poucas empresas no mundo teriam os recursos para absorver golpes dessa magnitude e ainda investir dezenas de bilhões em P&D.
880 bilhões de yuan depois: o que vem a seguir
A receita de 880 bilhões de yuan em 2024 coloca a Huawei em patamar comparável ao de gigantes como a Samsung Electronics. Mas os desafios continuam. Os EUA seguem ampliando restrições, incluindo limitações à exportação de chips de IA e ferramentas de design de semicondutores. A defasagem tecnológica nos processos de fabricação de chips — a TSMC já opera em 2nm enquanto a SMIC luta para estabilizar 7nm — é real e significativa.
A aposta da Huawei para a próxima década está em três frentes: consolidar o HarmonyOS como ecossistema completo além da China, expandir a divisão automotiva com mais parcerias e posicionar a Huawei Cloud e os chips Ascend como alternativa viável às soluções americanas de IA.
O fundador Ren Zhengfei, aos 80 anos, construiu uma empresa que fatura mais de US$100 bilhões sem acesso à tecnologia americana. Seja qual for a opinião sobre a Huawei, sobre a China ou sobre as sanções, o fato operacional é inegável: a empresa transformou a maior crise de sua história em combustível para reconstrução.
Esse tema foi destaque no China to Watch, onde acompanhamos de perto as movimentações tecnológicas, econômicas e geopolíticas que conectam a China ao resto do mundo — incluindo o Brasil. Se você quer entender a China que realmente importa para os seus negócios e para o futuro, acompanhe nossas análises semanais.