O maior programa de TV do planeta — e você provavelmente nunca ouviu falar dele
Todo ano, na véspera do Ano Novo Chinês, algo acontece que faz o Super Bowl parecer uma festa de bairro. A CMG Spring Festival Gala — conhecida popularmente como Chunwan (春晚) — reúne uma audiência que nenhum outro programa de televisão no mundo consegue igualar. A edição de 2018 atraiu mais de 1 bilhão de espectadores, segundo os produtores do programa. O Guinness World Records reconhece a Gala como o programa de TV mais assistido do planeta.
Transmitida ininterruptamente desde fevereiro de 1983, a Gala dura cerca de 270 minutos e mistura música, dança, comédia e drama num formato de show de variedades. Para centenas de milhões de famílias chinesas — incluindo a diáspora espalhada pelo mundo — assistir ao programa enquanto preparam jiaozi (bolinhos) é um ritual tão arraigado quanto o próprio feriado.
Mas reduzir a Gala a "entretenimento" é perder o ponto. Se você quer entender para onde a China está indo, preste atenção no que aparece naquele palco.
De festa improvisada a ferramenta de Estado
A primeira Gala, em 1983, foi um experimento de baixo orçamento. O diretor Huang Yihe tinha um estúdio de 600 metros quadrados, 60 funcionários, 200 convidados e nenhum dinheiro para gravação. O programa foi ao ar ao vivo, improvisado, com quatro telefones aceitando pedidos de telespectadores em tempo real. A cantora Li Guyi encerrou a noite com nove apresentações — incluindo a música "Hometown Love" (乡恋), que era oficialmente proibida na época por ser considerada "poluição espiritual" pelos linha-dura do Partido.
O sucesso foi imediato. Já em 1984, o programa virou instrumento político: enquanto China e Reino Unido negociavam o futuro de Hong Kong na Declaração Sino-Britânica, Huang convenceu autoridades a permitir que o cantor amador hongkonguês Cheung Ming-man se apresentasse com a patriótica "My Chinese Heart" (我的中国心). Foi a primeira vez que um artista de Hong Kong apareceu na TV chinesa. A mensagem era clara: Hong Kong é China.
A partir dos anos 1990, o componente político se tornou estrutural. Conforme a audiência crescia, o Estado aumentava seu controle sobre a produção. Segmentos inteiros passaram a celebrar "conquistas nacionais" do ano anterior e antecipar eventos significativos do ano seguinte. Em 2008, segundo a mídia estatal, altos funcionários do Departamento de Publicidade do Partido Comunista e da Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão estiveram presentes durante os ensaios para supervisionar a produção.
O jornal Takungpao resumiu a trajetória: a Gala evoluiu de uma "festa de fim de ano" para uma "conferência de disseminação de propaganda política".
Líderes no palco: a Gala como termômetro do poder
A relação entre a Gala e a liderança do Partido tem uma história reveladora. Em 1990, o secretário-geral Jiang Zemin e o premier Li Peng apareceram ao vivo no programa — os únicos seis minutos na história da Gala em que líderes nacionais participaram diretamente da transmissão.
A partir dos anos 1990, montagens em vídeo de líderes do Partido — de Mao Zedong a Hu Jintao — se tornaram presença fixa. Em 2007 e 2008, o programa exibiu a formação completa do Comitê Permanente do Politburo. Entre 2011 e 2014, essas imagens foram removidas, e o conteúdo político oscilou.
Mas em 2014, a Gala voltou com força total sob a era Xi Jinping. O programa celebrou extensivamente a ideologia do "Sonho Chinês" (中国梦). Em 2015, numa ruptura com a tradição, Xi Jinping apareceu sozinho numa longa montagem em vídeo durante uma canção no estilo ópera intitulada "Give My Heart to You" — algo sem precedentes na história do show. Três números de comédia daquela edição faziam referência direta à campanha anticorrupção de Xi.
A edição de 2016 foi considerada uma das mais políticas desde a criação do programa. Desde 2017, porém, a Gala deixou de exibir imagens de líderes nacionais, optando por vitrines de desenvolvimento econômico e temas nacionalistas. A mudança não representa menos controle — representa uma sofisticação na forma de comunicar.
2025: robôs Unitree e o sinal que o mundo quase perdeu
Na Gala do Ano Novo Chinês de 2025 (Ano da Serpente), o momento que viralizou globalmente não foi uma música nem uma piada. Foi a entrada de dezenas de robôs humanoides da Unitree Robotics dançando no palco com coordenação milimétrica — ao lado de referências à inteligência artificial da DeepSeek, a startup chinesa de IA que semanas antes havia chocado o Vale do Silício com modelos de linguagem de alto desempenho a custo drasticamente inferior.
Para quem assistiu como entretenimento, foi um espetáculo visual impressionante. Robôs bípedes executando coreografias sincronizadas, lado a lado com dançarinos humanos, num palco visto por centenas de milhões de pessoas ao vivo. Para quem entende como a China comunica suas prioridades, foi um comunicado oficial disfarçado de show.
Aparecer na Gala da CCTV não é algo que uma empresa simplesmente "compra" ou "conquista". A produção do programa passa por múltiplas camadas de aprovação do Departamento de Publicidade do Partido. Cada número é curado. Cada empresa que aparece naquele palco recebeu, de alguma forma, o selo do Estado.
Quando a Unitree mostrou seus robôs para 700 milhões de espectadores, a mensagem não era "olha que legal". A mensagem era: a China é líder mundial em robótica. Isso é prioridade nacional. Invistam aqui.
Quando a DeepSeek foi mencionada no mesmo palco, semanas após abalar mercados globais de tecnologia, a mensagem era: nós competimos em IA de ponta. Não precisamos do Vale do Silício.
O padrão histórico: o que entra na Gala vira política de Estado
Esse mecanismo não é novo — apenas se tornou mais sofisticado. A história da Gala está repleta de exemplos:
- 1984: Cheung Ming-man cantando "My Chinese Heart" durante negociações sobre Hong Kong — sinal de soberania territorial.
- 2008: Segmento sobre trabalhadores migrantes inserido por recomendação direta do premier Wen Jiabao, no ano dos Jogos Olímpicos de Pequim — sinal de "harmonia social".
- 2014-2015: Celebração explícita do "Sonho Chinês" e da campanha anticorrupção de Xi Jinping — consolidação de poder.
- 2025: Robôs humanoides e IA generativa no palco — sinal de que a política industrial de tecnologia avançada é a prioridade máxima.
O padrão é consistente: o que o Partido quer que 700 milhões de pessoas vejam ao mesmo tempo é aquilo que o Partido considera estrategicamente essencial naquele momento.
Por que o Ocidente não presta atenção (e deveria)
A Gala da CCTV é transmitida globalmente pela China Global Television Network (CGTN) desde 2016, com transmissões internacionais pela CCTV-4 desde os anos 1990. Mesmo assim, a cobertura ocidental tende a tratá-la como curiosidade cultural — "olha, chineses assistem TV juntos no Ano Novo" — sem analisar o conteúdo como o que ele realmente é: comunicação estratégica de Estado.
Em nenhum outro país do mundo o programa de TV mais assistido é simultaneamente produzido sob supervisão direta do aparato de propaganda do partido governante. Nos Estados Unidos, o Super Bowl vende espaço publicitário por US$ 7 milhões o slot de 30 segundos. Na China, a Gala é o espaço publicitário — mas o anunciante é o Estado, o produto é a visão de futuro do Partido, e a audiência é a nação inteira.
Analistas ocidentais que acompanham o setor de tecnologia chinês já começaram a perceber: quando uma startup aparece na Gala, não é coincidência. É o equivalente a receber um selo de aprovação diretamente do topo da cadeia de comando. Para investidores atentos, a Gala funciona como um indicador antecedente — uma prévia do que o governo vai priorizar em termos de subsídios, regulação favorável e apoio institucional nos meses seguintes.
Para empresários, investidores e analistas que acompanham a China, a Gala deveria ser leitura obrigatória. Não pelo entretenimento, mas pelo que ela revela sobre as prioridades industriais, tecnológicas e geopolíticas de Pequim para o ano seguinte.
Soft power com características chinesas
A Gala também funciona como ferramenta de soft power. As transmissões para a diáspora chinesa existem desde os anos 1990, e a música de encerramento — "Can't Forget Tonight" (难忘今宵) — se tornou uma das canções mais reconhecidas entre comunidades chinesas no mundo inteiro.
A presença militar é outro elemento constante. O Exército de Libertação Popular (PLA) aparece todos os anos, geralmente através de canções ou esquetes. Muitas das cantoras mais famosas da Gala — como Song Zuying, Dong Wenhua e Peng Liyuan (esposa de Xi Jinping) — têm origem nos grupos artísticos do PLA.
Nos últimos anos, a Gala incorporou transmissões ao vivo de múltiplos locais ao redor da China, exibindo megaprojetos de infraestrutura, zonas econômicas especiais e marcos tecnológicos regionais. Cada locação é escolhida com intenção cirúrgica. Se a câmera foi para Shenzhen, é porque o governo quer reforçar a narrativa de inovação tecnológica. Se foi para Xinjiang, é uma resposta às críticas internacionais sobre direitos humanos — mostrando "harmonia" e "prosperidade" na região.
Esse modelo de comunicação não tem equivalente no Ocidente. Não é publicidade, não é propaganda no sentido grosseiro da palavra. É algo mais sofisticado: uma vitrine curada pelo Estado que combina apelo emocional, orgulho nacional e direcionamento estratégico em um único pacote de 4 horas e meia, consumido simultaneamente por centenas de milhões de pessoas.
A mensagem para o público doméstico é: o Partido está entregando resultados. A mensagem para o público internacional é: a China é moderna, poderosa e unida.
Como ler a Gala: um guia para não-chineses
Se você quer usar a Gala como ferramenta de análise — e deveria — preste atenção nestes elementos:
- Empresas e tecnologias no palco: São as apostas industriais do governo. Unitree e DeepSeek em 2025 significam que robótica e IA são as prioridades do momento.
- Locações das transmissões externas: Indicam quais regiões ou projetos o governo quer destacar.
- Tom dos esquetes de comédia: Historicamente, refletem campanhas políticas em curso (anticorrupção, harmonia social, unidade nacional).
- Presença ou ausência de imagens de líderes: Sinaliza a dinâmica interna de poder do Partido.
- Canções patrióticas e temas militares: Indicam o grau de assertividade nacionalista que Pequim quer projetar naquele momento.
Conclusão: a TV mais assistida do mundo não é sobre TV
A Gala da CCTV é, ao mesmo tempo, o maior programa de entretenimento do planeta e uma das ferramentas de comunicação política mais sofisticadas em operação hoje. Cada número artístico, cada empresa convidada, cada localização de câmera é uma decisão deliberada, aprovada por múltiplas instâncias do Partido Comunista Chinês.
Ignorar a Gala é ignorar um dos poucos momentos em que o governo chinês fala diretamente — e simultaneamente — para mais de 700 milhões de pessoas sobre o que considera importante. Nenhuma coletiva de imprensa, nenhum documento do Partido, nenhum discurso de Xi Jinping atinge tanta gente ao mesmo tempo e com tanto impacto emocional.
E se robôs dançantes e IA generativa dominaram o palco em 2025, a pergunta que todo empresário e investidor deveria fazer não é "que show legal". A pergunta é: o que vai aparecer no próximo?
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