Um terawatt de sol: a China cruza a barreira histórica
Em maio de 2025, a China se tornou o primeiro país do planeta a ultrapassar 1.000 gigawatts (1 terawatt) de capacidade fotovoltaica instalada. Apenas um mês depois, em junho, o número já passava de 1.100 GW. Para colocar em perspectiva: isso é mais do que toda a capacidade solar combinada da Europa, Estados Unidos, Índia e Japão.
O marco não surgiu do nada. Só em 2024, o país adicionou 277 GW de energia solar — o equivalente a 15% de toda a capacidade solar acumulada do mundo. Nenhum outro país chegou perto: os Estados Unidos instalaram cerca de 35 GW no mesmo ano, e a Europa inteira somou aproximadamente 65 GW.
Esses números fazem a China responder por mais de um terço de toda a capacidade solar instalada no planeta. E a trajetória não dá sinais de desaceleração.
A escalada: de 80 MW a 1 terawatt em duas décadas
A história da energia solar chinesa começa nos laboratórios de semicondutores dos anos 1950, quando pesquisadores produziram a primeira peça de silício monocristalino do país. Durante décadas, a tecnologia serviu quase exclusivamente a satélites militares e civis.
O salto veio nos anos 2000. Em 2006, a China tinha meros 80 MW de capacidade solar total. A partir de 2011, o governo introduziu tarifas feed-in (preços garantidos para quem gerasse energia solar) que transformaram o setor. Em 2013, a China já era o maior instalador de painéis do mundo. Em 2015, ultrapassou a Alemanha como maior produtora de energia fotovoltaica. Em 2017, foi o primeiro país a superar 100 GW instalados.
A progressão nos anos seguintes foi exponencial:
- 2019: 205 GW acumulados
- 2020: 253 GW
- 2022: 393 GW
- 2023: ~610 GW
- 2024: ~887 GW (após adição recorde de 277 GW)
- Maio de 2025: 1.000 GW (1 TW)
- Junho de 2025: 1.100 GW
A meta de Xi Jinping, anunciada na Cúpula de Ambição Climática de 2020, era alcançar 1.200 GW de capacidade combinada de solar e eólica até 2030. A China bateu essa meta em 2024 — seis anos antes do prazo.
Por que a China instala mais que o resto do mundo junto
Três fatores explicam a dominância chinesa no setor solar: política industrial, escala de produção e custo.
Política industrial contínua. Desde o Sexto Plano Quinquenal (1981-1985), todo plano quinquenal chinês incluiu metas e incentivos para a fabricação de painéis solares. Após a crise financeira de 2008, o governo ofereceu terras baratas, incentivos fiscais e empréstimos subsidiados para salvar a indústria fotovoltaica. Quando a Europa e os EUA impuseram tarifas antidumping em 2011-2012 e empresas como a Suntech Power faliram, Pequim respondeu criando um mercado interno gigantesco.
Escala que ninguém alcança. Empresas chinesas dominam todas as etapas da cadeia produtiva: polissilício, wafers de silício, células fotovoltaicas e módulos solares. Essa verticalização permite reduzir custos de forma agressiva. A China produz mais de 80% dos painéis solares do mundo.
O custo despencou. Desde pelo menos 2023, a energia solar é mais barata que a energia a carvão na China. O preço dos módulos fotovoltaicos caiu mais de 90% desde 2010 — e boa parte dessa queda se deve à escala de produção chinesa. Em 2025, painéis solares de alta eficiência custam menos de US$ 0,10 por watt no mercado chinês.
LONGi, JA Solar, Trina: as gigantes que dominam o mercado global
Três empresas chinesas se destacam como pilares da indústria solar mundial.
LONGi Green Energy, fundada em 2000 em Xi'an, é a maior fabricante de wafers de silício monocristalino do mundo. A empresa se tornou referência em eficiência, quebrando recordes mundiais de conversão de células solares três vezes em cinco meses. A LONGi opera fábricas na China, Malásia e Vietnã, e seus módulos equipam projetos em mais de 150 países. Em 2024, a empresa anunciou reestruturação com redução de 30% do quadro, reflexo da guerra de preços que atingiu o setor — mas manteve a liderança em tecnologia.
JA Solar, fundada em 2005 em Pequim, vende para 178 países e regiões. A empresa é uma das maiores fabricantes de células e módulos fotovoltaicos do planeta, com forte presença na Europa, Coreia do Sul e América Latina. Listada na Bolsa de Shenzhen, a JA Solar expandiu agressivamente sua capacidade de produção nos últimos cinco anos.
Trina Solar, fundada em 1997 em Changzhou, registrou receita de US$ 11,27 bilhões em 2024 e emprega mais de 30.000 pessoas. Listada na Bolsa de Xangai, a Trina tem forte atuação no Brasil e no Caribe. "Quando chegamos ao país, o mercado era relativamente pequeno. Agora é um dos maiores do mundo", disse Álvaro García-Maltrás, vice-presidente da Trina para o Caribe e a América Latina.
Outras fabricantes relevantes incluem Canadian Solar (fundada por um chinês no Canadá, com produção majoritária na China), Jinko Solar e Risen Energy. Juntas, as cinco maiores fabricantes chinesas respondem por mais da metade de todos os módulos solares vendidos no planeta. É uma concentração de mercado sem paralelo em nenhum outro setor de energia.
O deserto de Gobi vira usina: os megaprojetos solares chineses
Boa parte da expansão solar chinesa acontece nas vastas regiões desérticas do oeste do país. O Deserto de Gobi, a Bacia de Tarim em Xinjiang e o planalto de Qinghai concentram alguns dos maiores parques solares já construídos.
O Tengger Desert Solar Park, na Mongólia Interior, tem capacidade de 1,5 GW e já foi o maior parque solar do mundo quando inaugurado em 2018. O Huanghe Hydropower Hainan Solar Park, em Qinghai, tem 2,2 GW — atualmente o segundo maior do planeta.
Em 2023, a China inaugurou em Sichuan a maior usina hidrossolar do mundo, que combina geração hidrelétrica com painéis fotovoltaicos. A estabilidade da energia hidrelétrica compensa a variabilidade da solar, criando um sistema mais confiável.
Esses projetos no deserto fazem parte de uma estratégia maior: gerar energia nas províncias ocidentais e transmiti-la para os centros de consumo no leste. Linhas de transmissão de ultra-alta voltagem (UHV) cruzam milhares de quilômetros para conectar Gobi a Xangai, Guangzhou e Pequim. A State Grid Corporation, estatal responsável pela rede elétrica, já opera mais de 30 linhas UHV — uma infraestrutura que nenhum outro país possui em escala comparável. É essa combinação de geração barata no deserto e transmissão de longa distância que torna o modelo solar chinês único.
O Brasil na rota dos painéis chineses
O Brasil é um dos maiores mercados para painéis solares chineses fora da Ásia. Com 53,9 GW de capacidade solar instalada em fevereiro de 2025, o país já é o 5º maior do mundo em energia solar — e a maior parte dos módulos vem da China.
A conexão é direta. Em 2020, a LONGi assinou um contrato para fornecer 908 MW em módulos solares ao Brasil. A Trina Solar tem operação consolidada no país e participa de leilões de energia. A fabricante chinesa Chint anunciou planos de construir uma fábrica de painéis no Rio Grande do Norte. A Canadian Solar opera uma fábrica em Sorocaba (SP) desde 2016, com capacidade de 400 MW anuais.
Para o Brasil, a queda de preços dos painéis chineses foi decisiva. O país saltou de menos de 1 GW instalado em 2017 para quase 54 GW em 2025, impulsionado por módulos importados a preços cada vez menores. A energia solar já responde por cerca de 10% da geração elétrica brasileira e 21,9% da matriz de capacidade instalada. O mercado de geração distribuída — pequenos painéis em telhados de casas e comércios — foi o que mais cresceu, com Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul liderando as instalações residenciais.
Essa dependência, porém, levanta questões. Eventuais tarifas comerciais, disputas geopolíticas ou problemas logísticos podem afetar o suprimento. Por enquanto, a parceria funciona: a China fornece a tecnologia barata, e o Brasil oferece um dos melhores índices de irradiação solar do mundo (4,25 a 6,5 horas de sol por dia).
A curva de custo que mudou tudo
A revolução solar chinesa não é apenas sobre gigawatts — é sobre o preço. A queda no custo da energia solar é uma das histórias econômicas mais impressionantes das últimas duas décadas.
Em 2010, o custo de um módulo solar era de cerca de US$ 2 por watt. Em 2020, caiu para US$ 0,20. Em 2025, módulos no mercado chinês custam menos de US$ 0,10 por watt. Essa queda de mais de 95% tornou a energia solar a fonte de eletricidade mais barata da história em muitas regiões do mundo.
A China é responsável pela maior parte dessa redução. Ao construir fábricas em escala gigantesca, investir pesadamente em P&D e aceitar margens de lucro mínimas (ou mesmo prejuízos temporários), as empresas chinesas forçaram o preço para baixo de forma que nenhum concorrente conseguiu acompanhar.
O resultado é paradoxal: a indústria solar chinesa enfrenta uma crise de lucratividade — a LONGi cortou 30% dos funcionários em 2024, e várias fabricantes menores fecharam — mas o mundo se beneficia de painéis solares incrivelmente baratos. É a destruição criativa em escala planetária.
Vento e sol: a meta que chegou cedo demais
A meta combinada de 1.200 GW de solar e eólica até 2030, anunciada por Xi Jinping em 2020, era considerada ambiciosa na época. A China a atingiu em 2024, seis anos antes do previsto.
Em abril de 2025, a energia eólica e solar combinadas superaram, pela primeira vez, um quarto de toda a geração de eletricidade da China. É uma transformação estrutural: a segunda maior economia do mundo está, lentamente, reduzindo sua dependência do carvão — ainda que o carvão continue dominante na matriz energética total.
O desafio agora é outro: integrar toda essa capacidade ao sistema elétrico. A intermitência da energia solar (que só gera durante o dia) exige investimentos massivos em armazenamento de energia, redes inteligentes e linhas de transmissão. A China também enfrenta o problema da "cortina solar" — energia produzida em excesso em horários de pico solar que não consegue ser absorvida pela rede.
O que os números dizem sobre o futuro
Se a China mantiver o ritmo de 2024 (277 GW/ano), terá 2 terawatts de capacidade solar instalada antes de 2030. Mesmo com desaceleração, a barreira dos 1,5 TW deve ser alcançada até 2027.
Para o resto do mundo, a mensagem é clara: a transição energética solar está acontecendo, e a China está no centro dela — como maior instalador, maior fabricante e maior exportador de painéis. O país não apenas instalou mais capacidade solar do que o resto do mundo combinado em 2024: ele também fabricou os painéis que o resto do mundo instalou. Países como o Brasil, que importam a maior parte de seus módulos da China, se beneficiam diretamente dessa escala.
Os debates sobre dependência tecnológica, práticas trabalhistas e subsídios governamentais são legítimos e importantes. Mas os números são incontestáveis: a China colocou mais painéis solares no mundo do que qualquer outro país poderia sonhar — e está apenas começando.
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