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Geopolítica

Como a China Construiu Seu Monopólio de Terras Raras em 40 Anos

De Deng Xiaoping ao embargo ao Japão: a estratégia de 40 anos que deu à China o controle de 90% das terras raras do mundo e poder geopolítico sem precedentes.

Como a China Construiu Seu Monopólio de Terras Raras em 40 Anos

Em 1992, durante uma visita ao sul da China, Deng Xiaoping disse uma frase que passaria décadas sendo repetida em círculos geopolíticos: "O Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras." Na época, pouca gente levou a sério. Os Estados Unidos eram o maior produtor mundial desses minerais, a mina de Mountain Pass na Califórnia operava a todo vapor, e ninguém imaginava que aqueles 17 elementos da tabela periódica — com nomes impronunciáveis como neodímio, disprósio e térbio — se tornariam o petróleo do século XXI.

Três décadas depois, a China controla cerca de 60% da mineração global de terras raras e mais de 85% do processamento. Não foi acidente. Foi estratégia industrial de longo prazo, executada com paciência, subsídios, destruição ambiental calculada e visão geopolítica. Esta é a história de como Pequim construiu esse monopólio — e de como agora o usa como arma.

O que são terras raras e por que importam

Terras raras são um grupo de 17 elementos metálicos: os 15 lantanídeos mais escândio e ítrio. O nome é enganoso — não são particularmente raros na crosta terrestre. O cério, por exemplo, é mais abundante que o cobre. O problema é que aparecem dispersos em concentrações baixas, misturados entre si e frequentemente associados a materiais radioativos como tório e urânio. Separá-los e purificá-los é caro, complexo e sujo.

Esses elementos são essenciais para a economia moderna. Estão nos ímãs permanentes de turbinas eólicas e motores de veículos elétricos (neodímio), nas telas de smartphones (európio), em sistemas de defesa como mísseis guiados e jatos de combate (samário), em catalisadores de refino de petróleo (lantânio) e em lasers médicos e industriais. Sem terras raras, não existe transição energética. Não existem armas modernas. Não existe a cadeia tecnológica como a conhecemos.

A visão de Deng Xiaoping: plantar para colher em décadas

Quando Deng fez sua famosa declaração, a China já havia começado a se posicionar. Desde o final dos anos 1970, o governo chinês identificou as terras raras como recurso estratégico de longo prazo. A lógica era simples: a China tinha reservas enormes, especialmente na região da Mongólia Interior (a mina de Bayan Obo, a maior do mundo), e mão de obra barata. Mais importante, tinha algo que democracias ocidentais não tinham — disposição para absorver o custo ambiental e a capacidade de planejar em horizontes de 20, 30, 40 anos.

O plano começou com investimento pesado em pesquisa. Xu Guangxian, o "pai das terras raras" chinês, desenvolveu na década de 1970 técnicas de extração por solvente em cascata que tornaram a separação dos elementos muito mais eficiente. Enquanto laboratórios americanos e franceses tratavam terras raras como curiosidade acadêmica, a China construía capacidade industrial.

Nos anos 1980 e 1990, o governo chinês subsidiou agressivamente a produção. Mineradoras estatais e privadas receberam crédito barato, isenções fiscais e regulação ambiental praticamente inexistente. O objetivo era claro: derrubar o preço internacional até que competidores estrangeiros desistissem.

A morte de Mountain Pass e o colapso ocidental

Funcionou. A mina de Mountain Pass, na Califórnia, que nos anos 1960 respondia por quase toda a produção mundial, começou a perder competitividade na década de 1990. Os preços despencaram conforme a produção chinesa inundava o mercado. Em 1998, um vazamento de resíduos radioativos forçou a mina a suspender operações de processamento. Em 2002, fechou. A empresa proprietária, Molycorp, tentou reabrir em 2012, mas faliu em 2015.

A história se repetiu em outros países. Minas na Austrália, Índia e África do Sul foram fechando ou deixaram de ser desenvolvidas. Não porque os depósitos se esgotaram, mas porque não conseguiam competir com os preços chineses. Era dumping estratégico — e o Ocidente, focado em lucros trimestrais, não percebeu o que estava acontecendo.

Enquanto isso, a China não parou na mineração. O passo seguinte — e mais importante — foi dominar o processamento. Minerar terras raras é apenas o começo. A verdadeira complexidade está na separação e refino dos elementos individuais, um processo químico que envolve centenas de etapas de extração por solvente. Ao longo dos anos 2000, a China construiu essa capacidade industrial praticamente sozinha. Hoje, mesmo países que mineram terras raras — como Austrália e Myanmar — enviam o minério bruto para a China processar.

2010: o embargo ao Japão e o despertar tardio

O mundo só acordou para a situação em setembro de 2010. Após um incidente envolvendo um barco pesqueiro chinês e a guarda costeira japonesa perto das ilhas Senkaku/Diaoyu, a China cortou informalmente as exportações de terras raras para o Japão. Pequim nunca admitiu oficialmente o embargo — chamou de "questões de logística" — mas o efeito foi imediato. O Japão, dependente de terras raras para sua indústria eletrônica e automotiva, entrou em pânico.

Os preços dispararam. O óxido de neodímio subiu mais de 700% em poucos meses. A crise expôs uma vulnerabilidade que governos ocidentais haviam ignorado durante duas décadas: um único país controlava o acesso a materiais essenciais para defesa, energia e tecnologia.

O Japão, Estados Unidos e União Europeia levaram o caso à Organização Mundial do Comércio. Em 2014, a OMC decidiu contra a China, que foi obrigada a suspender as cotas de exportação. Mas a vitória foi parcialmente vazia. A China já tinha o que queria: a cadeia de processamento estava consolidada dentro de suas fronteiras. Remover cotas de exportação não muda o fato de que 85% da capacidade de refino mundial está em território chinês.

A nova geração de controles: gálio, germânio e antimônio

Se alguém achava que a China havia aprendido a lição de 2010 e abandonaria o uso de minerais como arma geopolítica, estava enganado. O que mudou foi a sofisticação.

Em julho de 2023, Pequim impôs controles de exportação sobre gálio e germânio — semicondutores essenciais para chips, fibra óptica e equipamentos militares. Em outubro do mesmo ano, fez o mesmo com a grafita, material-chave para baterias de veículos elétricos. Em 2024, adicionou antimônio à lista — um mineral usado em munições, retardantes de chama e semicondutores.

Cada uma dessas restrições foi apresentada como medida de "segurança nacional", espelhando a mesma linguagem que os Estados Unidos usaram para justificar suas restrições de exportação de chips avançados para a China. A mensagem era clara: vocês nos restringem em semicondutores, nós restringimos vocês em matérias-primas.

Em 2025, com a escalada da guerra comercial sob a presidência Trump, a China ampliou ainda mais os controles, adicionando restrições sobre terras raras processadas — especificamente ímãs de neodímio e compostos de terras raras pesadas como disprósio e térbio, críticos para motores de veículos elétricos e sistemas de armas.

O custo ambiental: o preço que ninguém quis pagar

Existe uma razão pela qual o Ocidente cedeu o monopólio das terras raras à China além de míopia estratégica: o custo ambiental do processamento é brutal.

A mineração e o refino de terras raras geram resíduos radioativos (por conta do tório associado aos depósitos), ácidos tóxicos e enormes volumes de água contaminada. Na região de Baotou, na Mongólia Interior, existe um lago artificial de rejeitos tóxicos visível do espaço — um reservatório de lama radioativa e ácida que se estende por mais de 10 quilômetros quadrados. Comunidades locais relatam taxas elevadas de câncer, doenças respiratórias e contaminação de aquíferos.

Por décadas, reguladores chineses fizeram vista grossa. O custo ambiental era o subsídio oculto — ao não exigir padrões ambientais, a China mantinha seus custos de produção artificialmente baixos. Países como Estados Unidos, Austrália e Canadá, com regulações ambientais mais rígidas, simplesmente não conseguiam competir.

Nos últimos anos, a China começou a apertar sua própria regulação ambiental, consolidando centenas de mineradoras pequenas e ilegais em grandes estatais. Isso serviu a dois propósitos: melhorar marginalmente os padrões ambientais e, mais importante, aumentar o controle estatal sobre a produção.

A corrida para quebrar o monopólio

Desde 2010, houve dezenas de anúncios sobre projetos para diversificar a cadeia de terras raras. A realidade é que o progresso foi lento.

Os Estados Unidos reabriram Mountain Pass sob nova gestão (MP Materials), mas a mina ainda envia a maior parte do seu concentrado para a China processar. A Austrália desenvolveu o projeto Lynas, que processa terras raras na Malásia — o único processador significativo fora da China. O Japão investiu pesado em reciclagem e em depósitos submarinos. A União Europeia lançou o Critical Raw Materials Act em 2023.

Mas construir uma cadeia completa de processamento — da mina ao ímã — leva uma década no mínimo, exige bilhões em investimento e esbarra no problema ambiental que ninguém quer no próprio quintal. A China teve 40 anos de vantagem. Recuperar esse terreno não acontece com um decreto.

O Brasil, que detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, aparece frequentemente como alternativa potencial. Mas reserva não é produção. O país carece de infraestrutura de processamento, investimento em pesquisa e, principalmente, de uma política industrial consistente para o setor.

O que isso significa para o futuro

O monopólio chinês das terras raras não é apenas uma questão de mineração. É um estudo de caso sobre como poder industrial se traduz em poder geopolítico. A China identificou um recurso estratégico antes dos outros, investiu décadas em construir capacidade, aceitou custos ambientais que outros recusaram e agora colhe os dividendos.

A dependência global de terras raras chinesas é, em muitos aspectos, mais perigosa que a dependência de petróleo do Oriente Médio. Petróleo tem substitutos — nuclear, solar, eólico. Terras raras, por enquanto, não. Não existe motor de veículo elétrico sem neodímio. Não existe turbina eólica de alta eficiência sem disprósio. Não existem mísseis guiados sem samário.

Enquanto o mundo discute tarifas e guerras comerciais, o verdadeiro tabuleiro está nos elementos da tabela periódica que a maioria das pessoas não sabe pronunciar. E nesse tabuleiro, a China joga há 40 anos com vantagem.

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Fontes da publicação

CHINA TO WATCH / UM NOVO OLHAR

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