O mineral mais brasileiro do mundo
Existe uma cidade no interior de Minas Gerais que guarda, debaixo do solo vermelho do cerrado, a maior reserva de nióbio do planeta. Araxá, com seus 110 mil habitantes, é o endereço da CBMM — Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração —, a empresa que sozinha responde por cerca de 80% de todo o nióbio produzido no mundo. Não estamos falando de petróleo, soja ou minério de ferro. Estamos falando de um metal que fortalece o aço dos gasodutos, que faz funcionar os magnetos dos aparelhos de ressonância magnética e que pode ser o ingrediente-chave das baterias de próxima geração.
E tanto a China quanto os Estados Unidos sabem disso.
O que é o nióbio e por que ele importa
Nióbio é um elemento químico de número atômico 41, um metal cinza-prateado descoberto em 1801 pelo químico inglês Charles Hatchett. Na tabela periódica, ele fica ao lado do molibdênio e acima do tântalo — e por muito tempo foi confundido com este último. O nome vem da mitologia grega: Níobe, filha de Tântalo.
Na prática, o nióbio é adicionado ao aço em proporções mínimas — geralmente menos de 0,1% — mas o efeito é desproporcional. Ele aumenta a resistência mecânica do aço, permite que estruturas sejam mais leves sem perder força e melhora a resistência à corrosão. Segundo dados do U.S. Geological Survey (USGS), cerca de 90% do nióbio produzido no mundo vai para a fabricação de ferroniobio, uma liga com 60% a 70% de nióbio que é incorporada à produção de aços especiais.
Gasodutos, pontes, plataformas offshore, chassis de automóveis, trilhos de trem — tudo isso usa aço com nióbio. Mas as aplicações não param aí.
Supercondutores, chips e baterias: o nióbio do futuro
O nióbio tem uma propriedade rara: ele se torna supercondutor a temperaturas criogênicas, com a maior temperatura crítica entre todos os elementos puros — 9,2 K (-263,95 °C). Isso o torna essencial para os magnetos supercondutores usados em aparelhos de ressonância magnética (MRI), aceleradores de partículas como o LHC do CERN e equipamentos de fusão nuclear.
Ligas de nióbio-titânio e nióbio-estanho são o padrão da indústria para esses magnetos. Sem nióbio, não existiria ressonância magnética como a conhecemos.
Mas o que realmente está atraindo atenção geopolítica são as aplicações emergentes. Pesquisadores estão testando óxidos de nióbio em baterias de íon-lítio de próxima geração, onde o material promete ciclos de carga mais rápidos e maior durabilidade. A Toshiba, por exemplo, já desenvolveu baterias com ânodos de óxido de nióbio-titânio (NTO) que carregam em poucos minutos. A própria CBMM tem investido em pesquisa nessa área, com parcerias com universidades e empresas de tecnologia.
Na indústria de semicondutores, compostos de nióbio estão sendo explorados como dielétricos em capacitores e em aplicações de computação quântica. O nióbio é um dos materiais candidatos para qubits supercondutores — a base dos computadores quânticos que Google, IBM e startups chinesas estão desenvolvendo.
CBMM: de Araxá para o mundo
A história da CBMM começa em 1955, quando o depósito de pirocloro em Araxá foi identificado como a maior concentração de nióbio do planeta. A jazida está hospedada em uma intrusão carbonatítica — um tipo raro de rocha ígnea que concentra minerais de nióbio em quantidades economicamente viáveis.
A empresa foi fundada em 1955 e desde então cresceu para se tornar a líder absoluta do mercado global. De acordo com a Wikipedia (citando dados do USGS), em 2013 a CBMM controlava 85% da produção mundial de nióbio. Estimativas mais recentes situam essa fatia em torno de 75% a 80%, considerando o crescimento da produção em outras minas.
A segunda maior mina brasileira fica em Catalão, no estado de Goiás, e pertence à China Molybdenum (CMOC) — sim, uma empresa chinesa. Juntas, as duas operações brasileiras respondem por aproximadamente 88% da oferta global de nióbio, segundo dados do USGS.
A terceira maior produtora é a mina Niobec, em Saint-Honoré, Quebec, no Canadá, pertencente à Magris Resources, que produz entre 7% e 10% da oferta mundial.
Ou seja: o Brasil não apenas lidera — ele praticamente monopoliza o nióbio. E a CBMM é o coração desse monopólio.
A família Moreira Salles e o controle da CBMM
A CBMM é controlada pela família Moreira Salles, uma das mais ricas e influentes do Brasil — os mesmos donos do Itaú Unibanco, o maior banco privado da América Latina. A empresa não tem ações negociadas em bolsa, o que significa que suas decisões estratégicas não respondem a acionistas externos ou à pressão trimestral do mercado.
Em 2011, num movimento que chamou a atenção do mundo, a CBMM vendeu 30% de suas ações para um consórcio de investidores. Uma parte significativa foi adquirida por empresas asiáticas, incluindo siderúrgicas japonesas, sul-coreanas e — crucialmente — chinesas. Esse movimento deu à Ásia assento na mesa de decisões sobre o futuro do nióbio.
A China e o apetite por nióbio
A China é a maior produtora de aço do mundo, responsável por mais de 50% da produção global. Aço de alta qualidade requer nióbio. Essa equação explica por que Pequim tem interesse direto no que acontece em Araxá.
Mas o envolvimento chinês vai além de ser apenas comprador. A China Molybdenum (CMOC), estatal de mineração, é dona da mina de Catalão (GO) — a segunda maior operação de nióbio do Brasil. A aquisição aconteceu em 2016, quando a CMOC comprou os ativos de nióbio e fosfato da Anglo American no Brasil por US$ 1,5 bilhão. Foi um dos maiores investimentos chineses no setor mineral brasileiro.
A China também participou do consórcio que adquiriu participação na CBMM em 2011. Empresas como a CITIC Group, Baosteel, Anshan Iron and Steel e outras siderúrgicas chinesas garantiram acesso privilegiado ao suprimento de nióbio.
Em termos de consumo, a China é o maior importador mundial de nióbio. Segundo dados de comércio internacional, o Brasil exporta a maior parte de sua produção de ferroniobio para siderúrgicas chinesas, europeias e norte-americanas, com a China liderando em volume.
Para Pequim, garantir acesso ao nióbio brasileiro não é apenas uma questão comercial — é uma questão de segurança industrial. Sem nióbio, o aço chinês perde competitividade. E as ambições chinesas em computação quântica e baterias avançadas tornam o metal ainda mais estratégico.
Os Estados Unidos e a corrida por minerais críticos
Washington também está prestando atenção. O Departamento do Interior dos EUA incluiu o nióbio na lista de 50 minerais críticos — aqueles considerados essenciais para a segurança nacional e vulneráveis a interrupções de fornecimento. Os Estados Unidos não produzem nióbio domesticamente; toda a demanda é suprida por importações, principalmente do Brasil e do Canadá.
O relatório anual do USGS sobre commodities minerais destaca repetidamente a dependência americana do nióbio brasileiro. Num cenário de crescente rivalidade entre EUA e China, essa dependência compartilhada de uma única fonte cria uma dinâmica geopolítica delicada.
Em 2022, o governo Biden assinou a Inflation Reduction Act e o CHIPS Act, ambos com provisões para reduzir a dependência de cadeias de suprimento concentradas em poucos países. Minerais críticos como lítio, cobalto, terras raras — e nióbio — estão no centro dessas políticas.
Os EUA também tentam fortalecer laços com o Canadá (onde fica a mina Niobec) como fonte alternativa, mas a escala canadense não se compara à brasileira. No fim, Washington precisa do Brasil tanto quanto Pequim.
O Brasil no meio do tabuleiro
O Brasil ocupa uma posição privilegiada — e desconfortável — nessa disputa. Ter o quase-monopólio de um recurso estratégico é uma vantagem enorme, mas também é um alvo. A questão que se coloca é: o Brasil tem uma estratégia para o nióbio?
Até agora, a abordagem tem sido pragmática. A CBMM vende para todo mundo — China, EUA, Europa, Japão, Coreia. Não há embargo, não há favorecimento explícito. O ferroniobio brasileiro chega a mais de 40 países.
Mas vozes dentro do governo e da academia pedem uma política mais assertiva. Por que o Brasil exporta nióbio como matéria-prima (ferroniobio) em vez de desenvolver toda a cadeia de valor domesticamente? Por que não atrair fábricas de baterias de nióbio, de supercondutores, de componentes quânticos?
A resposta envolve investimento, tecnologia e vontade política. A CBMM tem feito sua parte no lado da pesquisa — a empresa mantém centros de tecnologia e tem parcerias com universidades no Brasil e no exterior. Mas a industrialização de produtos de alto valor agregado a partir do nióbio ainda é incipiente.
Nióbio não é meme — é geopolítica
Durante anos, o nióbio virou piada na internet brasileira. "Se o Brasil vendesse nióbio a preço justo, seria o país mais rico do mundo" — a frase circulou como meme, geralmente associada a teorias conspiratórias. A realidade é mais sutil e mais interessante.
O nióbio não é petróleo. A produção global é de cerca de 70.000 a 90.000 toneladas por ano, movimentando um mercado estimado em US$ 3 a 4 bilhões anuais. É um mercado de nicho, não uma commodity de massa. Mas o que lhe falta em volume, sobra em importância estratégica.
Um mundo sem nióbio teria gasodutos mais pesados e menos seguros, aviões com motores menos eficientes, hospitais sem ressonância magnética, e computadores quânticos que não funcionam. Poucos materiais têm essa combinação de usos críticos e concentração geográfica extrema.
E é exatamente essa concentração — mais de 85% da oferta em um único país, com uma única empresa dominando — que transforma o nióbio em uma questão geopolítica. Quando a China compra uma mina de nióbio em Goiás, quando os EUA listam nióbio como mineral crítico, quando investidores asiáticos entram no capital da CBMM — tudo isso é geopolítica em ação.
Números que importam
Para resumir o cenário:
- ~80% da produção mundial de nióbio vem da CBMM, em Araxá (MG) — Fonte: USGS, Wikipedia
- ~88% da oferta global vem do Brasil (CBMM + mina de Catalão/CMOC) — Fonte: USGS
- 60-70% é o teor de nióbio no ferroniobio, principal produto exportado — Fonte: USGS
- 50+ minerais críticos listados pelos EUA, incluindo nióbio — Fonte: U.S. Department of the Interior
- US$ 1,5 bilhão foi o valor pago pela China Molybdenum pelos ativos de nióbio da Anglo American em Catalão — Fonte: CMOC/Anglo American
- 9,2 K é a temperatura crítica do nióbio como supercondutor, a maior entre elementos puros — Fonte: Wikipedia/Niobium
O que observar daqui para frente
O nióbio vai ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Três tendências merecem atenção:
1. Baterias: Se a tecnologia de baterias com ânodos de óxido de nióbio se provar viável em escala comercial, a demanda pode disparar. A CBMM está investindo pesado nessa frente.
2. Computação quântica: Nióbio é um dos materiais-base para qubits supercondutores. À medida que Google, IBM e empresas chinesas escalam seus computadores quânticos, a demanda por nióbio de alta pureza tende a crescer.
3. Políticas de minerais críticos: Tanto EUA quanto União Europeia estão criando legislação para diversificar cadeias de suprimento de minerais estratégicos. O nióbio está nessas listas. Isso pode significar mais investimento em reciclagem, substituição — ou mais pressão sobre o Brasil para garantir acesso preferencial.
O Brasil tem nas mãos um trunfo raro nas relações internacionais. A pergunta é se vai jogar esse trunfo com estratégia — ou deixar que outros definam as regras do jogo.
Este artigo faz parte da cobertura do China to Watch sobre como a presença chinesa no Brasil se conecta a dinâmicas globais de tecnologia, minerais e geopolítica. Acompanhe nossas análises em chinato.watch.